Screenshots de Pelos Caminhos do Inferno

Como prometi faz tempo, e como estou sem criatividade para outros posts, o qu eresultou no longo tempo sem postar, vou postar aqui algumas imagens de Wake In Fright, obra-prima australiana que deve realmente ser reconhecida.

A Origem

E então saiu um dos filmes mais aguardados do ano. Também pudera, depois de dirigir o longa mais adorado por boa parte dos cinéfilos em 2008, “Batman – O Cavaleiro das Trevas”, as expectativas para o novo trabalho de Christopher Nolan não poderiam ser outras. Desta vez, ele aposta numa trama de ficção científica que mistura sonho e realidade.

Conta a história de um homem capaz de invadir a mente das pessoas para roubar segredos do subconsciente durante o sono. Visado pelo mundo da espionagem, ele agora é um foragido que para ter a chance de retornar aos Estados Unidos e reaver a guarda de seus filhos, aceita um trabalho diferente: em vez de pegar um segredo, ele deve implantar uma idéia na mente do herdeiro de uma mega empresa. Pois bem, a verdade é que Nolan decepciona na direção no que diz respeito à elaboração do mise-en-scene, pois é i-dên-ti-co ao de “The Dark Knight”. É impressionante, a fotografia escura, as tomadas aéreas com fundo musical (Paris à noite parecia Gotham City!), os enquadramentos, os closes (nos mesmos momentos, esperando os mesmos tipos de fala e reação), a câmera que pouquíssimas vezes pára de se mexer completamente, a edição (personagens conversando / ação ocorrendo), a trilha sonora (parente bem próxima) e a forma como é usada (sempre ali como pano de fundo, na mesma batida), tudo executado de forma tão igual ao “Cavaleiro das Trevas”, que o déjà vu é inevitável, a impressão é que “Inception” é um irmão gêmeo. Não que seja ruim, pois o objetivo é alcançado: a ação ininterrupta e a mistura de sonho e realidade funcionam bem. Mas não deixa de ser um trabalho visivelmente preguiçoso e sem inspiração, onde fica evidente que Nolan leva muito em consideração o ditado: “Em time que está ganhando não se mexe”; ou simplesmente que já mostrou tudo o que sabe fazer. O que piora a situação é justamente o fato de o antecessor ser um filmaço. Em “Batman”, todos os fatores de composição supracitados (manejados de forma que não haja perda de ritmo em momento algum) atingiram e representaram o auge da carreira e do estilo do diretor. Aqui ele ainda investe em artifícios visuais bacanões, tais como a cidade dobrável, a falta de gravidade, que são bem legais, mas só tentam ofuscar o resto comum (e até conseguem por alguns momentos).

Se em termos de direção ele se repetiu, no texto ele continuou bem. As características e elementos que ele gosta de trabalhar estão lá (o herói envolvido em dilemas nos quais está o seu affair; a cartase; os diálogos que não perdem o pique; a valorização dos coadjuvantes; etc.), e inseridos em mais uma boa proposta (apesar de não ser tão original assim) bem desenvolvida. O as da questão é que aqui não há uma força-motora tão avassaladora e interessante quanto um Coringa, que deu margem a inúmeras reviravoltas (surpreendentes) e possibilitou a abordagem de diversos assuntos trabalhados em cima de cada personagem, o que fez de The Dark Knight a trama bola-de-neve tão deliciosa que é.

E as qualidades do texto permaneceram. Nolan conduz bem a história, trabalha corretamente seus personagens, constrói a atmosfera de mistério (não tão bem quanto em “O Grande Truque”, diga-se de passagem), entretanto termina da mesma maneira que muitos outros (deixando aberto a interpretações e reassistidas). Mas é no núcleo envolvendo o passado do protagonista que ele tem seu momento mais feliz, onde levanta questões interessantes (a utilidade do método do sonho conjunto e que conseqüências ele poderia trazer) e melhor se utiliza da manipulação.

No elenco, Leonardo DiCaprio está muito melhor em “Ilha do Medo”; Joseph Gordon-Levitt é a cara do Heath Ledger; Ken Watanabe, Ellen Page e Cillian Murphy vão bem; mas quem brilha novamente é Marion Cottilard (homenageada pelo diretor através da canção da Edith Piaf que lhe rendeu merecidíssimos prêmios, inclusive o Oscar), mas não poderia ser diferente, sendo a mais talentosa do elenco e interpretando o melhor personagem.

Com uma boa premissa (apesar de derivar de muitas outras), Nolan repete tudo o que fez em seu trabalho anterior (sem nada a acrescentar além de algumas firulas) e entrega um filme que poderia ter sido muito melhor não fosse a sua falta de vontade (ou mesmo incapacidade) de mudar minimamente que fosse a forma (visual e narrativa) de contá-la, mas que vale a pena principalmente pelos minutos finais, bastante divertidos. Entretanto, “Ilha do Medo” continua sendo tranqüilamente o melhor filme de mistério do ano.

Nota 6.5 de 10.0.

Pelos Caminhos Do Inferno, 1971

Primeiramente, queria pedir desculpas pela minha ausência no site: estava com a vida tão ocupada de coisa [supérfluas em sua maioria, mas fazer o que?] que mal tive tempo para assistir filmes, quem dirá escrver para esse espaço, que sem seu combustível renovado basicamente para. Assisti dois filmes apenas nos últimos dias [não conto High School Musical, que fui obrigado a assistir]: Dente Canino, do Yorgos Lanthimos, e Bang Bang, da Andrea Tonacci. Duas obras-primas sensacionais, porém deixo para fazer minhas impressões em outros posts. Este aqui é dedicado a um filme que assisti graças a um colega meu, que, apesar de muito chato, descobri ter bom gosto para o cinema.

O filme, como o próprio nome do post diz, é Pelos Caminhos Do Inferno. O filme, feito na Austrália, conta a história de John Grant, um professor que leciona em uma pequena cidade chamada Tiboonda, que, nas férias que recebera no Natal, decide ir atrás de sua namorada, que mora na cidade mais populosa deste país quase que desabitado, Sidney, e curtir suas férias nas praias desta cidade maravilhosa, surfando. Mas para chegar a Sidney, John tem que parar em uma cidade chamada Bundanyabba, que fica literalmente no fim do mundo, onde pegaria um avião para suas tão almejadas férias perfeitas. Apelidada carinhosamente de The Yabba pelos seus moradores, percebe-se logo que a cidade é o paraíso perfeito para aqueles que gostam de uma aventura: é uma cidade lotada de mulheres sensuais, caçadas alucinantes, jogos de azar à beça e cerveja, muita cerveja. Aliás, devo dizer que nunca vi tanta cerveja em minha vida. John, que vinha desde Tiboonda tomando seus voluptuosos chopps, ao chega em Bundanyabba este vai À loucura: usa a cerveja como válvula de escape para seus problemas, recusando no início, mas logo cedendo à tentação, passado os próximos minutos do filme completamente embriagado, assim como os seus companheiros nesta ‘bad trip’.

Chegando na cidade, John se hospeda em uma espelunca, e, após descansar um pouco, vai para um espécie de bar. lá ele conhece Jock Crawford, um sargento policial da cidade, que serve como um guia para ele: é este sargento que o convence a jogar o jogo de azar chamado two-up. Como John estaqva com uma dívida, algumas contas para pagar, o que acabava o prendeno na escola que ele lecionava atualmente, ele pensou, após alguns copos de cerveja oferecidos pelo Sargento, que jogar até conseguir o dinheiro suficiente para a dívida era o melhor a se fazer. E, logo após alguns lances de sorte, John entra em uma maré de azar, onde ele acaba perdendo todos seus centavos, não podendo ir para Sidney ou voltar para Tiboonda. John estava completamente preso neste inferno. No outro dia, John sai do hotel, e recebe seu dólar de volta, que é preso enquanto se está no hotel, mas é liberado na sua saída. Mesmo com este dinheiro, ele sabe que não conseguirá se sustentar na cidade por muito tempo, passando por humilhações por acabar dependendo de alguns bruta-montes durões da cidade. Um deles é Tim, que, além de lhe oferecer algumas bebidas, oferece-o comida na sua casa, após ver a dura situação do recente conhecido. Lá John conhece a filha de Tim, Janette. Eles começam a conversar e logo chegam alguns colegas mais de Tim, que começam a falar besteira e beber cerveja. Vendo que John e Janette se retiraram do local, eles até questionam a masculinidade deste, pois prefere conversar com uma mulher ao invés de beber cerveja. Logo John and Janette se vêem em uma estranhíssima relação amorosa, após uma frustrada tentativa de sexo e alguns vômitos, que fazem John perceber que está totalmente bêbado.

Daqui em diante o filme ruma ao seu final. O que vem a partir deste momento é spoiler, então se não assistiu o filme, dou uma breve recomendação que pare por aqui. Primeiramente, John vai para a cabana de um amigo que conhecera na casa de Tim, Doc Tydon. Eles conversam, ele toma uma pílula para a sua ressaca, e descanasa. um pouco mais tarde, há a melhor cena de todo o filme, que é uma caça adoidada de John com seus colegas. A pouca iluminação das planícies arenosas da Austrália em conjunto com a brutalidade dos cangurus sendo mortos, e de uma câmera frenéticamente, que mostra John incomodado em meio a toda aquela visceralidade, e seus colegas rindo como loucos. Mas logo o professor entra no clima da brincadeira, e, após descer do jipe, acaba por matar com uma faca um filhote de canguru ferido, em uma cena brutal e quase psicodélica. Sentimo-nos como bêbados na cena, embriagados pela trilha e pelos movimentos surtantes de câmera, assim como a cara de John, como se estivesse fora de controle.Após toda esta brincadeira sádica, os amigos vão paraum pequeno barzinho, onde começam uma rixa completamente sem motivo, onde risadas e brincadeiras logo se transformam em raiva e socos. Após isso, eles destroem o barzinho, que fica devastado pelos dois. Após esta noite alucinante, completamente bêbados, a dupla volta para a barraca de Doc, onde os dois se deitam no chão, e começam uma estranha relação sexual. Isso mesmo, os dois, ébrios, começam a fazer sexo no chão da casa de Doc.

Completamente atordoado, confuso, e extremamente cansado, John acorda, e se sente logo em desespero. Pega suas poucas coisas, se despede do seu ex-parceiro amoroso e parte para Sidney, com uma arma na mão e uma mala com suas coisas. Encontra um caminhão que irá para Sidney, mas, por um erro de comunicação, acaba indo para outro lugar. Pega seu rifle e anda sozinho, desolado, a esmo em meio a tanta areia e a uma vegtação bem escassa, semelhante ao que conhecemos aqui como cerrado. Os planos à distância, que enfatizam mais a paisagem do que o próprio personagem, predominam. Este então volta para ‘The Yabba’, onde vai para casa de Doc e espera este voltar com o rifle apontado para a porta. Mas, ao final, quando este chega em casa, o professor, já completamente diferente da imagem que tinha dele no início do filme, senta no chão, e, chorando, se suicida. Após acordar mais uma vez[nem tente contar quantas foram], ele se vê em um hospital médico. Sua tentativa de suicídio não havia sido bem-sucedida. O médico, apesar de saber que fora uma tentativa de suicídio, resolve esquecer o caso, dizendo que, se pergutarem para ele o que aconteceu, para ele falar que a arma disparara sozinha. Este então, com bandagens imensas em volta da cabeça, volta a Tiboonda, graças a Doc Tydon, que paga a passagem para ele. As palavras dele ao chegarem na pequena estaçao de Tiboonda são memoráveis, onde o perguntam: “Você gostou das suas férias?”, que ele responde com: “As melhores.” E assim o filme acaba. FIM DO SPOILER

É fácil fazer todo um falatório imenso sobre as qualidades do filme, pois estas não são poucas. As atuações, que passam pelo personagem enigmático de John Grant, que nunca sabemos sua reação a tais fatos, normalmente se portando contra qualquer ato imoral ou indecente, mas rapidamente entrando na brincadeira de foram descontrolada; o médico Doc Tydon, que interpreta perfeitamente uma pessoa com alguns parafusos à menos, sem muito do que esperar da vida, e por isso tenta aproveitá-la do modo mais radical que consegue, apenas por diversão; além dos dois, temos todo o elenco de coadjuvantes enaltecendo o clima mórbido daquela cidade macabra, como o sargento e a Janette, completamente loucos. A fotografia é um dos destaques, pois se destaca tanto com planos abertos, que fotografam as areias das planícies desertas australianas, que são cenas que enchem os olhos de qualque cinéfilo de bom gosto; e também a câmera em planos mais fechados, como os diálogos ou ações importantes, que não convém certo distanciamento. Estas cenas tem uma câmera bem ágil e movimentada, com iluminação em perfeita sintonia com seus momentos. Um dos exemplos é da tensão que a câmera capta durante as partidas de two-up, onde o silêncio domina e vemos apenas o rosto dele extremamente suado, com iluminação forte, entrecortado por imagens das moedas girando no ar, e, logo após, sua decepção, com um corte dele pelado deitado em sua cama no açbergue, se lamentando. A trilha sonora é mais umd estaque entre tantos, o som dos vento e das areias se movendo nos palcos da história são marcantes, e muito bem colocados. Esta também usa um instrumental que, não sei por que, se assimila bastante com a Austrália. O roteiro e os diálogos também são um achado, visto que são por muitas vezes engraçados e se adequam perfeitamente a proposta: ser um filme completamente nonsense, com as situações mais absurdas possíveis, e se encaixando bem com a famosa frase: “O que acontece em Vegas, fica em Vegas.”, só que agora em Bundanyabba. Juntando tudo e batendo no liquidificador com a direção certeira do Ted Kotcheff, que dirigiu também o famoso filme  “Rambo”, Wake In Fright só poderia sair uma obra-prima de primeiro nível, divertida como uma comédia, porém porém extremamente alucinante e absurdo, o que sinceramente, dá toda a graça do filme. Ah, e claro, a cerveja.

Nota: 8.5 de 10.0

Como o filme é lindo demais, vou fazer uma coletânea de algumas screenshots fantásticas, tentar ser o amsi seletivo possível, e anexá-las no post.

TOP 25: Cinema Asiático by Me

PS: O Augusto está de viagem, volta esta sexta, e deixou este TOp paraeu postar em seu nome enquanto viajava.

Ok, eu não queria ter feito agora pois tem muita coisa para ver ainda, mas se fosse seguir essa idéia eu jamais faria o TOP. Meus próximos serão: Era Uma Vez em Tóquio, A Face de Um Outro, tudo o que falta da filmografia de Kar Wai, e os de Kurosawa que for conseguindo. Por enquanto meu TOP é este:

1. A Mulher da Areia, de Hiroshi Teshigahara.

2. Duplo Suicídio em Amijima, de Masahiro Shinoda.

3. A Marca do Assassino, de Seijun Suzuki.

4. Amor à Flor da Pele, de Wong Kar Wai.

5. Ran, de Akira Kurosawa.

6. Onibaba – A Mulher Demônio, de Kaneto Shindô.

7. Rashomon, de Akira Kurosawa.

8. Contos da Lua Vaga, de Kenji Mizogushi.

9. Kagemusha – A Sombra do Samurai, de Akira Kurosawa.

10. Os Sete Samurais, de Akira Kurosawa.

11. Pai e Filha, de Yasujiro Ozu.

12. Harakiri, de Masaki Kobayashi.

13. Mal dos Trópicos, de Apichatpong Wheeresetakul, vulgo Joe.

14. Todos Porcos, de Shohei Imamura.

15. Intendente Sanshô, de Kenji Mizogushi.

16. Céu e Inferno, de Akira Kurosawa.

17. Lanternas Vermelhas, de Zhang Yimou.

18. Trono Manchado de Sangue, de Akira Kurosawa.

19. A Viagem de Chihiro, de Hayao Myiasaki.

20. Sonhos, de Akira Kurosawa.

21. Meu Vizinho Totoro, de Hayao Miyasaki.

22. O Império dos Sentidos, de Nagisa Oshima.

23. Amores Expressos, de Wong Kar Wai.

24. Tóquio Violenta, de Seijun Suzuki.

25. O Túmulo dos Vagalumes, de Isao Takahata.

Amores Expressos, 1994

Wong Kar Wai, ou Kar Wai Wong, é um diretor que ficou bem famoso, ou, pelo menos, cultuado, pela sua forma original de encarar o amor, mesmo após 100 anos de várias tentaivas para entender o próprio, sempre busca sem sucesso, mas que divertiram e ainda divertem espectadores no mundo todo. Mas, se todas as buscas não acharam resultado, Kar-Wai se aproxima bastante do amor, por filmar um amor moderno, menos eterno, porém mais aceso, mais apaixonado, mesmo que este não necessite de sua consumação carnal. Os amores que são intermitentes, passageiros, mas que, como diz Vinicius De Moraes:

“Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure.”

Enfim, saindo um pouco do Kar-Wai, vamos falar um poucos de Amores Expressos (que teve o nome bastante modificado, sendo o original “A Selva de ChungKing” e o inglês “Chungking Express”), que segue a mesma fórmula dos outros filmes do Kar-Wai, sendo seu quarto filme, é uma película impressionante, por tratar duas histórias, que, apesar de diferentes, tem a mesma temática: Amores Expressos. Pode parecer ridículo, mas o nome aqui no Brasil se adequa perfeitamente ao filme. Seguindo a lógica, irei falar um pouco sobre os contos separadamente, depois faço um mix no final.

O primeiro conto, estrelado por um casal meio ‘excêntrico’, um policial, o 233, e uma viciada em drogas traficante de heroína, é um achado na carreira do Kar Wai, e provavelmente seu melhor trabalho. Começamos o filme com a narração do 233, que narra como se estivesse ciente de tudo que iria ocorrer no filme. Em uma cena que no mínimo é chamada de alucinante, há uma perseguição entre um fugitivo e o policial. Esta cena já é uma prova mais que concreta que a parceria do Wai com o fotógrafo Cristopher Doyle geraria belíssimos frutos nos próximos anos [o mais óbvio é Amor À Flor Da Pele, que é o amor impresso em película]: uma câmera alucinada, trêmula, doida, atordoada, em meio a uma Tóquio que é alvo ao longo dos 110 minutos de filme: uma cidade suja, densa, lotada, industrializada, comercializada, onde as pessoas são peças minúsculas de toda uma máquina: o capitalismo. Uma cidade rodeada pelo moderno, uma pântano cheio de propagandas, uma selva. Isso é óbvio em todo o filme, com algumas passagens bem explícitas: a Coca-Cola é um elemento que aparece diversas vezes em ambas histórias, logotipos de todos os tipos, outdoors gigantes, hits musicais sendo tocados toda hora, sempre uma confusão, tudo envolto a uma aura futurista. Essa era a Tóquio de 1994. E é nessa perseguição que nosso policial vê pela primeira vez sua amada, ao se esbarrar nela acidentalmente. Eles se olham e ele continua o seu trabalho. Um olhar do acaso, pois, em uma metrópole com aquela, vários encontros anônimos ocorriam daquele jeito a todo momento.

A partir daqui o filme vai mostrando a vida dos dois personagens, que já têm o destino traçado para se encontrarem alguma vez em suas vidas. A moça está em uma operação perigosíssima de uma transação de drogas, que acaba não dando muito certo, o que faz ela ser perseguida por minutos alucinantes, em uma fuga cheia de tiros e sufoco. Enquanto isso o policial vive sua vida com problemas emocionais: ele acabara de terminar com sua namorada, pelo menos, já tem o fim do namoro traçado pelos dois: ela avisou a ele que o namoro acabaria dia 1º de maio, aniversário dele. Ela fez esse aviso no dia da mentira, e a partir daí, ele passou a comprar várias latas de abacaxi com a validade para o fatídico dia, uma a cada dia, de modo que, se o dia chegasse e a namorada não houvesse mudado seu veredito, o namoro iria passar da validade. No seu último dia, ele sai triste pela cidade, e, após ter comido todo aquele abacaxi, ele vai para um bar, onde encontra a traficante, que está visivelmente cansada, pois, apesar dele não saber, havia acabado de fugir de vários homens. Ele tenta puxar papo, mas ela quer dormir. Ele a leva para casa depois de alguns minutos de conversa,  e faz ela dormir, ficando ao seu lado acordado a noite toda. No outro dia, seu aniversário, ele resolve correr para perder todo o seu líquido corporal, e assim não chorar, e então ele recebe uma ligação dela, desejando feliz aniversário. E é aqui que acaba o amor deles, no exato ponto que se inicia. Como diz o título, é literalmente um amor expresso, chegando sem avisar a ninguém e saindo do mesmo jeito.

Apesar da história, o que realmente toca neste filme são suas sacadas geniais, comandadas pelos diálogos, sempre à frente do seu tempo. Kar Wai expressa todo um furacão em volta do casal, que, ironicamente, são pontos extremos de uma linha, que normalmente deveriam estar se matando, e estavam se amando. Cristopher Doyle utiliza uma câmera centrada nos personagens, apesar de mostrat a multidão que é Tóquio passar para um lado e para o outro no plano de fundo da tela, rapidamente. A trilha sonora, recheada por um saxofone tristonho, solitário, é a cereja do sorvete, que pontua todas as cenas de uma forma única. [PS: eu não contei o final para não estragar a surpresa.]

A outra história, ligeiramente inferior, é sobre uma atendente de uma lanchonete, e outro policial, o 663. O policial está em outro relacionamento difícil, com uma aeromoça, que está peto de seu fim. Ele vive o amor perfeito, sendo completamente apaixonado por ela, porém isso faz com que ele não enxergue todos os buracos e falhas deste namoro. Após este acabar o policial fica completamente frustrado, mas a tímida atendente, que é fascinada por músicas altas, principalmente pela música “California Dreamin'” [que é tema do casal, e é particularmente bem encaixada no filme, onde mostra todo este capitalismo e cultura expressa], e tem uma meiguice extrema, vai discretamente se apaixonando por ele, sem que este saiba. Esta passa então a invadir a casa dele e fazer pequenas coisas, como lavar os pratos e limpar a casa, enquanto este está no trabalho. Esse é o início do amor dos dois, que irá começar propriamente na última cena do filme, particularmente engraçada e emocionante, onde eles falam sobre aviões e companhias aéreas, e acabam por se declarar um ao outro, em meio a olhares, palavras e música, bem alta.

Esta segunda parte falha por ser um pouco ingênua de mais, e de ser demorada para chegar no ponto certo, [ela é bem maior que a primeira]. Enquanto a trilha dessa aqui é mais marcante, exatamente pela predileção pela música da garota, o filme cai um pouco em ritmo e em fotografia, se tornando até um pouco banal. O filme, porém, não é afetado em relação aos diálogos e as sacadas, pequenas coisas que realmente tornam um filme grandioso. Este ainda continua com o brilhantismo da exposição da Tóquio futurista e moderna dos anos 90.

Nota geral: 8.0 de 10.0

TOP 50 Filmes

resolvi fazer esse post, mais como um documento, e também segundo a proposta que li no Cineplayers, site de cinema que frequento constantemente. VOu tentar colocar todos os filmes que eu amo, mas, mesmo assim, muitos ficarão de fora. Ah, também vai ser notável a repetição de alguns, como o Welles que aparece três vezes, ou o Wilder. Mas acontece, gênios são gênios.

  1. Persona – Quando Duas Mulheres Pecam, Ingmar Bergman (1966)
  2. O Demônio Das Onze Horas, Jean-Luc Godard (1965)
  3. Vá E Veja, Elem Klimov (1985)
  4. Crepúsculo Dos Deuses, Billy Wilder (1950)
  5. A Harpa Da Birmânia, Kon Ichikawa (1956)
  6. Blow-Up – Depois Daquele Beijo, Michelangelo Antonioni (1966)
  7. Harakiri, Masaki Kobayashi (1962)
  8. M – O Vampiro De Dusseldorf, Fritz Lang (1931)
  9. Um Corpo Que Cai, Alfred Hitchcock (1958)
  10. A Mulher Da Areia, Hiroshi Teshigahara (1964)
  11. A Montanha Dos Sete Abutres, Billy Wilder (1951)
  12. A Marca Da Maldade, Orson Welles (1958)
  13. Rebelião, Masaki Kobayashi (1967)
  14. Os Sete Samurais, Akira Kurosawa (1954)
  15. A Regra Do Jogo, Jean Renoir (1939)
  16. Verdades E Mentiras, Orson Welles (1974)
  17. Morangos Silvestres, Ingmar Bergman (1957)
  18. Ran, Akira Kurosawa (1985)
  19. A Conversação, Francis Ford Coppola (1974)
  20. O Salário Do Medo, Henri-Georges Clouzot (1953)
  21. Onde Começa O Inferno, Howard Hawks (1959)
  22. Gritos E Sussurros, Ingmar Bergman (1972)
  23. Cidadão Kane, Orson Welles (1941)
  24. Rashomon, Akira Kurosawa (1950)
  25. O Discreto Charme Da Burguesia, Luis Buñuel (1972)
  26. Era Uma Vez Em Tóquio, Yasujiro Ozu (1953)
  27. Psicose, Alfred Hitchcock (1960)
  28. 2001: Uma Odisséia No Espaço, Stanley Kubrick (1968)
  29. O Encouraçado Potemkin, Sergei Eisenstein (1927)
  30. Contos Da Lua Vaga, Kenji Mizoguchi (1953)
  31. Os Incompreendidos, François Truffaut (1959)
  32. Dias De Ira, Carl Th. Dreyer (1943)
  33. Ser Ou Não Ser, Ernst Lubitsch (1942)
  34. Tesouro De Sierra Madre, John Huston (1948)
  35. Onibaba – A Mulher Demônio, Kaneto Shindô (1964)
  36. A Paixão De Joana D’Arc, Carl Th. Dreyer (1928)
  37. Meu Ódio Sera Tua Herança, Sam Peckinpah (1969)
  38. O Intendente Sanshô, Kenji Mizoguchi (1954)
  39. Manhattan, Woody Allen (1979)
  40. Fanny E Alexander, Ingmar Bergman (1982)
  41. Aguirre, A Cólera Dos Deuses, Werner Herzog (1972)
  42. Amadeus, Milos Forman (1984)
  43. Três Homens Em Conflito, Sergio Leone (1966)
  44. Cidade Dos Sonhos, David Lynch (2001)
  45. Jogos E Trapaças, Robert Altman (1971)
  46. Yojimbo – O Guarda-Costa, Akira Kurosawa (1961)
  47. Morte Em Veneza, Luchino Visconti (1971)
  48. A Marca Do Assassino, Seijun Suzuki (1967)
  49. A Face De Um Outro, Hiroshi Teshigahara (1966)
  50. Cachè, Michael Haneke (2005)
  51. Quanto Mais Quente Melhor, Billy Wilder (1959)
  52. Apocalypse Now, Francis Ford Coppola (1974)
  53. Tenebre, Dario Argento (1982)
  54. Nosferatu, F. W. Murnau (1922)
  55. Pulp Fiction, Quentin Tarantino (1994)
  56. A Ponte Do Rio Kwai, David Lean (1957)
  57. Dançando no Escuro, Lars Von Trier (2000)
  58. O Desprezo, Jean-Luc Godard (1963)
  59. Prelúdio Para Matar, Dario Argento (1975)
  60. Era Uma Vez No Oeste, Sergio Leone (1968)

Estendi para 60 e mesmo assim ficaram muitos filmes fora. Quando tiverem filmes melhores e substituírem a área que tem vários filmes com a mesma nota vai ser mais fácil, com certeza. u.u

O Show Deve Continuar (1979)

No Cinema, quando um artista resolve trabalhar em algum projeto que tenha ao menos traços autobiográficos o resultado é na maioria das vezes marcante, e até definitivo. Um exemplo recente é ator Mickey Rourke, que encarnou um lutador decadente no filme de Darren Aronofsky, sendo este o grande marco em sua carreira. Entretanto, quando é o diretor quem se vê sendo exposto em cena, dificilmente o filme em questão não é uma obra-prima. Fellini, em seu indescritível “8½”, passou para a tela o universo (real e imaginário) de um diretor (interpretado magistralmente por Marcello Mastroianni, e que no fundo é o próprio Fellini) com bloqueio criativo e crise existencial e familiar que não vê outra saída para a pressão que vivia senão suas próprias memórias. E do seu modo todo particular e autoral, concebeu uma das maiores obras-primas do Cinema. Já Chaplin não foi tão feliz com seu “Luzes da Ribalta”, onde elaborou cenas belíssimas e inesquecíveis (o palhaço se apresentando para uma platéia vazia, por exemplo) para extravasar toda sua angústia com o mundo que o desprezava em sua velhice depois de anos gloriosos na juventude, ao mesmo tempo que saturou com diálogos descaradamente auto-conclamativos. Mas deixando de lado os poréns, o fato é que nesses casos se sente o coração e a alma do autor, o que faz o ato de assistir a esses filmes ser tão emocionante e nostálgico quanto ouvir o desabafo de um amigo, um velho conhecido. E com Bob Fosse, artista dos palcos que ao passar para as telas marcou seu nome com uma filmografia curta mas bem relevante, não foi diferente. Depois de dirigir aquele que é provavelmente o melhor musical já feito (para este que vos fala, obviamente), “Cabaret”, e passear pela cinebiografia com “Lenny” (que farei questão de conferir assim que possível), entregou a obra-prima em que reflete sobre si mesmo, “O Show Deve Continuar” (All That Jazz).

“It’s Show Time, Folks!”

É dizendo essa frase à frente do espelho, ao som de música clássica, e tomando suas anfetaminas e afins, que Joe Gideon inicia todos os seus dias. Coreógrafo, diretor de teatro e Cinema além de tremendo mulherengo, o protagonista (hã, Fosse?) vivido por Roy Scheider se encontra entre o “pós-sucesso” e o início da decadência: os produtores não o admiram e apóiam como antes, sua obra está ficando pessoal demais e por isso exala sensualidade (a cena em que apresenta a coreografia ensaiada é linda); suas relações com a ex-mulher e a filha, apesar de harmoniosas, vivem sob a sombra de seu estilo “sex and drugs artístico” de vida (vide a linda cena em que numa breve coreografia a filha interroga o pai sobre suas amantes e depois de perguntada “Por que é tão importante para você que eu me case de novo?”, responde: “Você iria parar de transar com todo mundo.”); seu perfeccionismo, agora mais atuante do que nunca, reflete a insegurança com sua arte; e sua saúde, além de tudo isso, está debilitada.

“A vida é estar na corda bamba. O resto é só espera.”

O primeiro ato de “O Show Deve Continuar” se dedica a construir e aprofundar o universo que cerca seu protagonista, suas relações, suas manias e suas reflexões (com a materialização de seus pensamentos, onde discute sua vida com a personificação da beleza, aqui interpretada por Jessica Lange, no clássico de Fellini fora Claudia Cardinale), para o segundo mexer mais drasticamente na trama de forma que os personagens prossigam sendo quem são. E é nesse respeito à humanidade (característica básica do homem, que o permite cometer erros e acertos, excessos e limitações, e o torna capaz de mudar a si próprio ou simplesmente de continuar sendo como é mesmo que o mundo exija o contrário) dos personagens, que está grande mérito das obras-primas musicais de Fosse. É impressionante a fluidez que o diretor/co-roteirista imprime aos filmes, sem jamais manejar seus personagens em favor de alguma história mas deixando-os ser quem são para construir, a partir disso, seus destinos e conseqüentemente os rumos da história. Aqui, a personalidade de Joe é mais forte que qualquer idéia de mudá-la em prol de uma recuperação do seu estado clínico, e o que seria óbvio vindo de um filme dá lugar para o que é óbvio dentro daquela história, daqueles personagens. Não adianta, por mais que pensemos e esperemos que ele se recupere (mesmo sabendo que ele nada faz para isso), não é a vida que vem e sim a morte, a inevitável conseqüência de tudo o que fora contado ali.

Pois bem, então como é inserida a parte musical? Bob Fosse já havia mudado a maneira de se utilizar as músicas em “Cabaret”, provavelmente o uso mais brilhante das mesmas dentro de um contexto, sendo representações com um dosado tom irônico do que está acontecendo na trama, todas encenadas no palco do Kit Kat Club e com a presença do enigmático e bizarro mestre de cerimônias (personagem icônico de Joel Gray, em atuação simplesmente fantástica). Aqui as músicas e as coreografias aparecem quando devem aparecer (o primeiro número propriamente dito só acontece com quarenta e tantos minutos), com função de, no primeiro ato, não só ambientar o mundo de Joe como complementar aqui e ali certas características de personagens (a mostra da coreografia aos produtores como reflexo do estado criativo do protagonista, por exemplo); e no segundo pôr em prática o sentido do título no show de despedida sonhado por Joe antes da morte.

Fosse é não só um grande contador de histórias, que não atropela nem demora demais em qualquer dos pontos da história, como um diretor que sabe muito bem o que fazer com sua câmera. Ele não se ausenta da função e fica só a filmar, nem faz firulas de modo a chamar as atenções para si, mas está ali, presente, fazendo de seu mise-en-scene um meio não só de salientar a narrativa como também de dar sempre seu tom; em resumo, fazendo o que um diretor realmente bom sabe fazer, acertando na mosca a dosagem de tudo o que tem à mão, inclusive a forma como imprime seu tom à obra. Obviamente a técnica é primorosa, fotografia (enquadramentos, angulações, iluminação, etc.), edição (se há fluidez, é ponto positivo aqui), toda a direção de arte, enfim, bom do jeito que é, Fosse não deixaria seu filme cair de qualidade em qualquer aspecto que seja.

Por fim, resta reverenciar a obra desse diretor que, em quantidade fez pouco, mas foi responsável por dois dos melhores musicais de sempre.

Nota 8.5 de 10.0.